Jaraguá é Guarani

 Talvez um relato sobre reencontro. 

À procura de mim.

Em um sábado de 2019, subi até a aldeia Itakupe, no Jaraguá, zona norte da cidade, onde estava marcada a concentração para um roteiro de atividades na mata com idealizador do projeto Existe Água em SP, Adriano Sampaio, e guaranis mbya. Na primeira parada do grupo, um espaço lúgubre que nas palavras de Pedro Karai Yapua, responsável pelo cuidado das ervas medicinais, líder espiritual/xeramõi escolhido e naquela circunstância guiando também os visitantes, fora usado como cativeiro de pessoas escravizadas, caminhamos para mais a frente observar uma fonte natural, com troncos grossos baixos, plantas altas que guardam e pedem que a fileira humana se apoie mutuamente, ali seguramos então as mãos uns dos outros não poucas vezes para evitar quedas, enquanto crianças guaranis estendiam os bracinhos a quem estava a frente para serem erguidas e logo colocadas rapidamente sobre a terra, saíam correndo e achávamos graça, cobrindo o restante, aprendendo, verdade que elas voltavam por vezes  para que ninguém ficasse muito para trás, extremamente atenciosas.

A fonte é uma beleza, nos colocamos em círculo enquanto Pedro nos ensinava como aproveitar a folha de uma planta que cresce ao redor , tornando -a através de um movimento sutil, um "copinho" natural de armazenamento daquela água limpa jorrante, cada pessoa pronta para a experiência foi convidada a se equilibrar sobre as rochas, sob o exame dos mesmos pequenos.

Em uma das entrevistas concedidas por Ailton Krenak, o pensador nos convida a questionar o ato de pisar de quem se acha senhor, não parte, da arrogante presunção do sujeito a quem não tem interessado ver a terra como um organismo, e nós, uma espécie dependente. Em um mundo criado por e para branquitude possuir, não cabem noções de responsabilidade comum, de solidariedade. 

Que sejamos capazes de falar sobre outra vida pós pandemia, que escutemos, leiamos quem nunca sentiu estar para uma ideia de realização exclusiva, voltemos ao cultivo, este também é um convite, um chamado sensível por uma coletividade que exercite práticas mais do que bem vindas para o equilíbrio, para um novo mundo.

Leandro 


Comentários

Comentários

  1. Leandro, acho que mencionei durante aquelas aulas de cantos, o quanto estar meramente na presença dos rapazes M'bya era por si só um grande aprendizado. O agir sensível e o agregar, tão comum às suas realidades foi o primeiro grande aprendizado que eu tive daquela experiência. Teu texto me trouxe essa lembrança, pois consigo visualizar junto a vc essa experiência doce e acolhedora do estar junto a eles. Do aprender com eles. E a cada nova oportunidade, me sinto mais próxima de ser eu mesma.

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