Antes de tudo, o reconhecimento do EXISTIR!
Como primeira publicação nesse projeto pessoal de registrar reflexões, perspectivas e aprendizagens quanto à luta que a nossa Ancestralidade ainda trava para se manter viva e enraizada no nosso mundo, no nosso Brasil, escolhi esta fala de uma das guerreiras mais inspiradoras e incansáveis de que tenho conhecimento.
Valdelice Veron. Indígena mulher Guarani Kaiowá de Mato Grosso do Sul, filha de Marcos Veron, líder Kaiowá covardemente assassinado há 17 anos atrás por defender sua terra ancestral e seu povo de invasões e ataques de ruralistas. O caso foi finalizado sem justa condenação, como o de muitos outros líderes mortos em nosso Brasil. Valdelice se tornou e se mantém hoje a líder de sua aldeia.
Em sua participação na live do canal CULTURAS BR no Facebook, com mais um discurso inspirador, carregado de orgulho, de respaldo originário, de força, da emotividade e sabedoria que líderes natos carregam, Valdelice falou sobre a questão que considera primordial na luta indígena.
Não foi sobre o direito de se defender, nem sobre o direito de viver em suas terras, mas, antes de tudo isso, o direito de ter sua existência RECONHECIDA. O direito de se fazer ser conhecido. De ser vislumbrado. De se fazer ser percebido.
Qual a importância da fala dela?
Tudo o que existe oficialmente em nossa realidade tem sua existência respaldada em lei. O que você pode fazer, o que você não pode fazer, o que é indecoroso, o que é só uma transgressão, o que é crime. Nossas ações, ou seja, nosso espaço de agir, de se expressar, de ocupar a realidade, de se fazer ser notado positiva ou negativamente, nossos limites de existência e até de resistência margeiam as letras das leis. Nossa vida, o bem maior que existe segundo a Constituição, é exaustivamente determinada em todas as suas camadas, nas letras mortas e estáticas de um texto legal.
Que responsabilidade, não é? Carregar e delimitar o poder de potência de um indivíduo, seu ser, seu não-ser, seu estar e seu não-estar, seu possível e seu não-possível.
Sim, é uma grande responsabilidade! E essa responsabilidade foi atribuída a nós mesmos. Homens e mulheres que se dedicam a estudar e galgar o degrau social que nos dará este poder FENOMENAL de brincar de Deus com a vida não só nossa, mas de todos os que estiverem sob o julgo e alcance dessa brilhante criação humana, chamada LEI.
A questão toda está bem aqui. No momento em que nasce um legislador, no momento em que milhões ou trilhões de vidas estão sob a responsabilidade de um, dois, três... 1000 pessoas, que seja.
A questão é a VISIBILIDADE que esta pessoa está garantido para os grupos sociais que ela vai amparar neste texto. Ou a INVISIBILIDADE que ela irá atribuir a determinados outros grupos, seja consciente ou inconscientemente.
A visibilidade de que trato aqui também é relativa ao resultado do processo histórico e cultural de um povo que é responsável por focar suas lentes valorativas, estéticas e filosóficas, grau em grau, aumentando ou diminuindo a distância que resolvem manter das formas de existência que lhe são apresentadas. Estas lentes ou estas distâncias não são as mesmas em todo lugar, obviamente. Assim como a razão por trás de suas transformações também não o são.
Ao considerar cada país como um espaço heterotópico, pode-se ilustrar aqui o nosso Brasil como sendo um país que atualmente escolhe o uso das lentes irracionais, anticientíficas, antiprogressistas, antievolutivas, antivitalicias, antigeracionais, anti qualquer sentido para a qual a humanidade tende a caminhar de forma natural.
Em concatenamento, tudo o quanto for do lado oposto a estas lentes tende a ser distanciado delas, de forma a adquirir uma aparente e momentânea espécie de sub-existência ou invisibilidade. É disto que estou tratando aqui. Da invisibilidade forçada e inconsequente de formas de existência que fazem frente às lentes que vestimos diariamente, e que são permeadas de resistência à ignorância, ao cinismo e à brutalidade do agir humano no mundo.
Em minhas pesquisas pessoais sobre a temática indígena no Brasil, percebi que eu era uma das muitas, aliás, da maioria de pessoas que desconhecem completamente a realidade em que vivem os nossos povos originários atualmente. Eu me vi esbaforida com minha própria ignorância da multiplicidade micro e macro existencial de populações inteiras, seus territórios, histórias, culturas e suas problemáticas.
O auge da revelação da minha alienação particular foi a descoberta dos diversos processos de apagamento, extermínio e invisibilidade que todas estas populações passam há inesgotáveis anos. Desde os mais sutis como a falta de conhecimento histórico de seus direitos e de reconhecimento do povo brasileiro, aos mais escrachados, como o assassinato em massa das lideranças e militâncias indígenas, motivados pelas causas mais absurdas e irrelevantes possíveis.
O meu pensar-sentir (porque é um processo inseparável em mim) ao saber que um indígena foi morto por estar "atrapalhando" os interesses do "progresso brasileiro" é sempre um urro de dor mais ou menos traduzível em "como podem fazer isso? Como se atrevem a ceifar uma vida tão valiosa como essa a troco de nada?"
Nada. Não há motivo que justifique. Esse ato é, por falta de uma palavra melhor, pura barbaridade.
O pior é que, devido à alienação emocional e psicológica cultural brasileira, quando se fala em morte, assassinato, extermínio, as pessoas que nunca experenciaram de perto essa situação não conseguem ter dimensão da seriedade a que isso remete. Da seriedade, do peso, do luto e da dor que muitas destas populações vivem há mais de 500 anos de perseguição, sendo elas ainda hoje tragicamente consideradas, mesmo que seja bem lá no âmago da essência brasileira, existências que atrasam o sonhado "progresso econômico" fervorosamente orquestrado pelos nossos governantes e ilusoriamente empurrado goela abaixo na cabeça do povo.
Somos, enquanto cidadãos de um país que abandonou suas raízes, todos nós, coniventes e cúmplices deste massacre genocida a partir do momento em que nos mantemos em nossas ilhas de comodidade e escolhemos permanecer ignorantes, alheios, distantes e insensíveis ao apagamento da história de nosso país, materializada nos corpos e nas vidas de todas as etnias que aqui ainda existem e resistem.
Somos nós os responsáveis pela INVISIBILIDADE que os impede de VIVER na plenitude de suas cosmologias, e não só de SOBREVIVER. Somos nós que, em nossa escolha de permanecer inertes e de não entender a urgência de se ajustar nossas lentes, mantemos toda a sabedoria, a riqueza espiritual, conhecimentos seculares e o espírito de cuidado, de comunidade, de humanidade, afastados da realidade que vive a sociedade brasileira.
Muito teremos a aprender e a crescer com nossos indígenas se tivermos coragem suficiente para nos unir a eles e lutar pela sua VISIBILIDADE, pela sua EXISTÊNCIA. Perdemos tanto ao abandoná-los nessa luta que nem é possível determinar o mal que isso simboliza para nós enquanto povo.
Esse texto é um chamado a dar o primeiro passo nessa união. Um chamado a conhecer, a respeitar, a valorizar, a reconhecer e revitalizar nossos laços ancestrais.
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Não posso deixar de estrear este espaço onde vou traduzir o que tenho cultivado de mais sagrado em meu coração, transmitindo minha gratidão às pessoas que passaram pelo meu caminho como guias nesse despertar de consciência.
Deixo aqui então registrada minha imensa admiração e carinho por Merlane Tiryo, Edson Kayapó, Aline Kayapó, Kuaray Karai Tataendy, Whera Tupã, Kuaray Silva, Célia Xakriabá e Valdelice Veron.
Meu coração vibra em sintonia aos seus!
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Deixo também registrado um super carinho poético-filosófico por Herbert Valente e Adriana Abreu que neste percurso até aqui e de certo ainda mais adiante, me fizeram sentir acompanhada em meio ao caos existencial que passamos; acolhida, em meus dias de desespero e esperançosa (do verbo esperançar, não esperar), nos dias que liguei o botão do "Foda-se".
Ainda que virtualmente, graças à distância imposta destes tempos pandêmicos, as energias, poesias e figurinhas trocadas são uma injeção de ânimo que faz toda a diferença, meu casal de piracemas psicodélico! =)
Jaina Nahema
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